ESPORTE, DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA: O ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO COMO FERRAMENTA DE PROMOÇÃO DO SISTEMA CAPITALISTA por Nian Dal Chicco Silva
Mas
afinal, o que é esse tal capitalismo que tanto falam por ai? Será um terrível
vilão? Um grande herói? Por que uns o criticam tanto? E por que outros o
defendem tanto? Bem, o capitalismo pode ter muitos significados que varia de
acordo com as condições de uma pessoa, para uma pessoa rica, dona de algum meio
de produção, que lucra com algo, com certeza é uma coisa ótima, raramente esse vai
encarar o capitalismo como um sistema prejudicial para alguém, mas para uma
pessoa trabalhadora, que ao final de suas 44 horas semanais de trabalho não
consegue comprar com seu salário aquilo que em 44 horas ela mesma produziu,
existem duas possibilidades, ela pode enxergar o capitalismo e os capitalistas
e seus aliados como um terrível inimigo, ou ela pode estar sob o efeito de
algum tipo de ilusão, algum feitiço que o próprio capitalismo lança, afinal esse
é um sistema sedutor.
Mas
sem querer desprezar a opinião dos outros sobre esse assunto, agora, nesta
produção que você está lendo, vamos tratar do capitalismo sob a concepção de
Karl Marx e Friedrich Engels, esses dois companheiros, que juntos ou separados,
apresentaram para o mundo diversos estudos sobre esse tema. As obras desses
pensadores do século XIX sobre o capitalismo são muito complexas, esse artigo
seria muito mais longo se realmente me aprofunda-se nos conceitos de ambos
sobre isso, portanto serei breve, basicamente, a concepção desses autores sobre
o capitalismo é que a lógica desse sistema busca transformar tudo em
mercadoria, fazendo da força de trabalho do operário um objeto de compra e
venda. Isso a principio parece justo, afinal eu preciso trabalhar para sobreviver
e viver, mas se formos comparar o lucro dos patrões, donos dos meios de
produção, com o salario que um operário consegue ao vender sua força de
trabalho, a conversa passa a ser outra.
E
os atletas dos esportes de alto rendimento? Encaixam-se nas teorias desses
pensadores? Será que os atletas fazem de seus movimentos algum tipo de
mercadoria? Será que a mercadoria dos atletas são as suas forças de trabalho,
ou será que eles mesmos são as mercadorias? Vamos analisar: os atletas precisam
participar de competições para receber o que recebem e, além disso, devem obter
rendimento naquilo que praticam, ou seja, eles devem trabalhar, logo eles
vendem sua força de trabalho, mas é só isso que eles vendem? Vejam bem, o
esporte de alto rendimento, seja ele os mais populares ou menos, para poderem
vender os espetáculos oferecidos pela modalidade, deve criar a relação entre a
produção e o consumo do produto, a produção se dá pelos atletas, técnicos,
gestores e outros, já a forma como isso vai ser consumido se dá pelas idas aos
locais onde ocorrem as competições, mas mais ainda, através das mídias
(televisão, internet, rádio, entre outros), que é onde se obtém maior alcance
de consumo do esporte, pois este é um dos meios de socialização por onde as
pessoas podem se desenvolver no sentido cultural. Portanto, o atleta muito mais
que simplesmente vender o seu rendimento em alguma modalidade, ele deve vender
uma imagem, Marx chama isso em seus estudos de fetiche, que é quando um produto
obtém valor além da mão-de-obra e matéria-prima utilizada, quer dizer, um
atleta que consegue vender a imagem de bom jogador, “bom-moço” e de um “cara
legal”, torna-se um atleta muito mais valioso, isso que causa a divergência
entre os salários.
Mas
como o esporte se torna uma ferramenta para a promoção do sistema capitalista?
Bem, neste momento falarei de algumas características do esporte que podem ser
associadas ao sistema capitalista, começando pelas regras, bem, um bom atleta
deve sempre seguir as regras, é o que torna o esporte um espaço para igualdade
e justiça, assim como no sistema capitalista. Essa velha história de que seguir
regras no nosso mundo não é nova, o capitalismo não respeita as desvantagens
que as classes oprimidas possuem e impõem regras iguais para todos seguirem,
como se isso fosse promover a igualdade entre as classes, mas ainda assim o
acesso das pessoas das classes oprimidas a serviços básicos para vida como
educação, saúde, segurança, lazer, entre outros, é muito mais difícil do que
para as pessoas da classe opressora. E o mesmo ocorre no esporte, quero dizer,
entre um jogo entre o time de futebol do São Paulo e o time de futebol de
Jarinu, quem teria mais chances de vitória? Não quero dizer que um time menor
não possa ganhar de um time maior, falo de chances, da diferença de valor entre
esses produtos (que são os times e seus atletas), quem sofreria mais com a
derrota? Quem teria que trabalhar mais para ganhar? De quem são os atletas mais
valiosos? De quem é a maior torcida? Quem lucraria mais? As respostas dessas
perguntas tornam a questão das regras um fator de igualdade entre os times, mas
um fator de injustiça para os menos favorecidos.
E
por falar em desigualdades, outro discurso que é muito presente no meio
esportivo assim como no sistema capitalista é o de que as derrotas e
sofrimentos de nossas vidas são sempre associados a nossa falta de trabalho. É
o tal do discurso meritocratico que diz que você só não venceu na vida ainda
porque não trabalhou o suficiente, como se aquele 1% da população mundial que
detém a mesma riqueza que os outros 99% juntos trabalhasse muito mais que todos
esses. E fazendo a comparação com o meio esportivo, se você não vence uma
competição é sinal de que você não competiu bem o suficiente ou treinou pouco.
Mas voltando a fazer uma análise daquele time grande e do time pequeno do
paragrafo anterior, entre esses dois, quem tem acesso aos melhores técnicos?
Quem tem acesso as melhores equipes e equipamentos de saúde? Aos melhores
equipamentos de treino? As melhores refeições e aos melhores suplementos
alimentares? Quer dizer, você pode treinar o quanto quiser no seu campo de
várzea, mas se você não tem acesso ao que é melhor suas chances de vitória
serão bem menores, mas o discurso meritocratico do capitalismo (ou do esporte)
vai dizer que você não treinou (ou trabalhou) o bastante.
Mas
qual a relação disso tudo com os direitos humanos? Se hoje os direitos humanos
são respeitados de alguma forma, não é graças ao capitalismo, como tentei dizer
durante o desenvolvimento de todo esse artigo, o capitalismo promove o conflito
entre classes, logo promove a desigualdade e a injustiça em nosso mundo. O
termo “igualdade” é algo que esta presente em 5 artigos da declaração universal
dos direitos humanos, além de estar no preâmbulo também, logo é possível dizer
que a igualdade é algo básico para os direitos humanos. Se o esporte de alto
rendimento é reflexo do que ocorre no capitalismo, se o esporte de alto
rendimento é um grande influenciador cultural por estar presente nas mídias, se
o esporte de alto rendimento é uma ferramenta de promoção do sistema
capitalista, se o capitalismo promove a desigualdade social e a igualdade é
algo básico para que os direitos humanos possam existir, logo é possível dizer
que o esporte de alto rendimento é uma ferramenta de propaganda que se
contrapõe aos direitos humanos.
Vejam
bem, tudo o que disse neste artigo não significa que me contraponho a pratica
esportiva, mas tendo o esporte de alto rendimento como algo que influencia o
mundo e principalmente as outras manifestações desportivas, devemos ter um
olhar mais critico sobre o que ocorre em nossas aulas (falo com os professores
de educação física agora e com outras profissões que lidam com isso de alguma
forma) assim como um olhar mais critico sobre o que consumimos enquanto
espectadores de alguma modalidade esportiva, afinal, o meio esportivo não é
simplesmente uma prática corporal, o meio esportivo é um fenômeno social que
reflete os conflitos que ocorrem em nosso meio, tornando-se portanto, espaço
para política, economia, cultura, lazer e outros fatores que compõem o nosso
meio. O esporte não precisa ser espaço de exclusão e desigualdade, mas nós
enquanto membros da sociedade e ele enquanto produção social é isso, basta que
nós enquanto consumidores e produtores de cultura (logo agentes
transformadores) façamos dele ferramenta para promoção dos valores e
necessidades básicas de todo ser humano.
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